DO DIREITO DE IR E VIR

” Na manhã da última quinta-feira, dia 5 de março, recebi voz de prisão por desacato a autoridade. O fato foi amplamente divulgado pela imprensa e escrevo para dar meu depoimento pessoal a respeito do que aconteceu:
Fui à rua passear com meu cão, um inofensivo filhote de setter irlandês e, ao sair da portaria do prédio onde resido na Rua Marquês de São Vicente, fui surpreendido pelo que parecia ser mais uma das operações “Choque de Ordem” da nova administração da Prefeitura do Rio de Janeiro. De fato, uma retro escavadeira, caminhões, viaturas e dezenas de guardas municipais haviam sido mobilizados para se fazer cumprir uma decisão judicial de demolição do Bar e Restaurante “Espelunca Chic”. Moradores do bairro da Gávea, trabalhadores, homens e mulheres, senhoras, crianças e também cachorros tentavam se locomover em meio a um verdadeiro caos.

Naturalmente, perguntei a um dos guardas municipais por onde eu poderia passar com o meu cão, pois não havia nenhum cordão de isolamento, sinalização ou orientação para que a população pudesse circular em segurança. Ele, de forma rude, me respondeu que passasse pela rua, vale dizer, na contramão do fluxo de automóveis. Tentei seguir a orientação do guarda mas alguns passos depois vi que era impossível seguir adiante pois havia um caminhão no meio da passagem e outros pedestres vindo na direção contrária. Quando me virei para voltar, meu cachorro começou a brincar com o outro cão. Para eles, não existe “Choque de Ordem”, democracia ou ditadura, e todas as pessoas são pessoas, fardadas ou não.

Neste momento um soldado da Guarda Municipal apanhou o cassetete de um companheiro e disse: “me dá isso aqui, porque se esse cachorro pular em mim eu vou bater nele”. Perguntei qual o motivo da ameaça de agressão, já que meu cão e eu não havíamos feito nada errado, imoral ou contra a lei. Minha pergunta não foi respondida com palavras pela autoridade, mas com uma truculenta agressão física.
Fui jogado ao chão e surrado por vários guardas municipais. Meu cão foi arrancado de minhas mãos e abandonado na calçada em meio ao caos, sendo generosamente levado por um desconhecido, a quem pude com muito sacrifício dizer o número do prédio em que moro, pois logo fui jogado numa viatura e conduzido a 15ª DP da Gávea.

Me causa indignação saber que fui vítima de ação truculenta, resultado da incompetência, por parte do poder público, na condução de uma operação que se deve planejar pensando, acima de tudo, no respeito aos direitos dos cidadãos.

Quero agradecer a todas as pessoas que se solidarizaram comigo e que também se indignaram com a ação irresponsável e desastrosa que levou ainda o gerente do estabelecimento destruído a sofrer uma isquemia cerebral que o mantém hospitalizado no Miguel Couto em estado grave. Solidarizo-me com sua família e com de todos os funcionários que, de uma hora para outra, perderam o local de trabalho que lhes garantia o sustento.

Que a nossa cidade apresenta irregularidades de toda ordem, concordamos todos, que inúmeros estabelecimentos comerciais, ou não, invadem espaço público e áreas de preservação ambiental, estamos também de acordo.
O que não podemos aceitar são os métodos utilizados em nome do bem público. Métodos esses que, salvo engano, trazem à memória dos mais velhos o longo período de arbítrio, quando então, na defesa da alardeada segurança nacional, os fins justificavam os meios.
Quero ainda deixar claro que não incitei meu cão a atacar ninguém e que em momento algum pretendi impedir a ação da justiça.”
(Michel Bercovitch, 11 de março de 2009)
Fotos tiradas daqui.
O Michel é meu amigo, meu irmão. meu confidente. Nos conhecemos desde não sei quando e vivemos muitas dores e alegrias juntos. Ele é um dos caras mais inteligentes e talentonsos que conheço. E é muito amado por um bando de gente (ainda bem!). De todos os meus amigos é o que tem o coração mais macio e quentinho. Definitivamente ele não merecia, nunca, jamais, em tempo algum, passar por um constrangimento e violência desse tipo. Desde a semana passada, nós, amigos mais íntimos do Michel, estamos vivendo momentos de muita dor e indignação. Não só pelo ocorrido, machucados externos e internos que nosso amigo passou, mas porque esta é uma realidade muito assustadora. Um pesadelo perene. Isso aconteceu na Zona Sul do Rio de Janeiro mas poderia ter acontecido em qualquer lugar desse país, eu sei e você aí sabe também. Estamos vivendo dias de intolerância zero por parte de tudo e todos. Não sabemos mais quem é do bem e quem é do mal, já que a corda bamba balança e serve para todos. Publico aqui os esclarecimentos dele para que a gente possa parar um minutinho e pensar: para onde estamos indo, por que estamos indo e pra quê estamos indo?!







31 Comentários
Que absurdo !
E os bandidos de verdade continuam soltos !!!
Nem consigo imaginar pelo que o Michel passou e graças a Deus o cachorro dele não tentou defendê-lo, não quero nem pesar no que teriam feito com ele se agrediram o Michel que é um ser humano e do bem imagina só o que fariam com o cãozinho.
Por Luzia no dia 03.13.09 12:54
Muito triste saber que essas coisas ainda estao acontecendo na minha tao querida e distante “land”… Será que um dia vamos poder cantar “dos filhos desse solo es mãe gentil” ??
I’m so sorry pelo seu amigo Denize…Um abraço!
Por Rose NY no dia 03.13.09 12:59
Meu Deus, que coisa triste…
Por Cecília no dia 03.13.09 13:05
É com (muita) lágrima nos olhos que leio esta notícia. Já tinha recebido a carta, mas não tinha visto as fotos, que são chocantes. É um soco no estômago. Conheço o Michel de vista por aqui e ele é amigo de muitos amigos meus. Tristeza e indignação. Não consigo dizer mais nada.
Por Renata no dia 03.13.09 13:23
Fico arrasada com isto. E com muito medo. Foi chocante, não pode deixar isto quieto! Além da violência com seu amigo que foi absurda, com certeza esta área deve ser de algum manda-chuva para demolir. Tem milhões de condomínios fechados, mansões em praias particulares e todas as casas riquíssimas em volta ao lago de Brasília e não tiram uma formiga. Lamentável.
Por Gi (Ctba) no dia 03.13.09 13:44
Estou estarrecida e indignada com essa história!
Por Helkinha (BA) no dia 03.13.09 13:55
Isso realmente dá muito medo…
Por Liliane Bsb no dia 03.13.09 14:05
Denize… tô sem palavras. Meus olhos se encheram de lágrimas, fiquei arrepiada, comovida, e revoltada… tudo ao mesmo tempo… dizer q fiquei indignada é pouco. Fiquei com vergonha.
Quanta violência desmedida… não sabemos mais quem são os mocinhos e quem são os bandidos….
:o(
Por Eliane (Stos-SP) no dia 03.13.09 14:54
a falta de respeito, de bom senso, a falta de maturidade, a falta de qualidade de vida, transforma pessoas em monstros. estou chocada. odeio a violência vinda de gente que abusa de poder. odeio o Brasil pela pieguisse e pela falta de educaçao geral. a gente está sobrevivendo. para onde vamos, eu tentando levar minha vida e rezando para que nenhum infeliz tire meu sossego. aqui pensar no coletivo complica geral. por isso que todo mundo anda individualista e sem acreditar realmente que existe sim gente sangue bom….ah sei lá…to revoltada com isso que mostrou.
Por van no dia 03.13.09 15:00
Nossa, que absurdo, Dê. Tô passada!
Hj não estou num dia muito legal, nem vou falar mais nada, só fica registrado aqui a minha revolta.
Beijos pra vc.
Por Carol Marques - Alemanha no dia 03.13.09 15:05
Voltei pra ver as fotos e reler o texto. De novo, olhos ficaram tomados de lágrimas…
Odeio me sentir impotente! como forma de protesto, estou divulgando o link dessa noticia para alguns amigos, para que eles também tomem ciência dessa barbárie, e conscientização contra a violência.
Um beijo,
Eli
Por Eliane (Stos-SP) no dia 03.13.09 15:18
Chega!!!!Que absurdo!!!!Estou indignada com tamanha barbaridade!!!!Estou solidária com vcs…
bjo
Por Ângela no dia 03.13.09 15:18
Nossa tô chocada com tanta brutalidade e desrespeito Dê … nem sei bem o que pensar nessas horas
Por *Renata Costa* no dia 03.13.09 15:20
Posso ficar em silêncio
?
Besos
Por Ana Flávia BH no dia 03.13.09 15:25
Toda solidariedade e carinho ao Michel.
Por Cris DF no dia 03.13.09 15:29
Que situação lamentável, isso realmente e infelizmente acontece diversas vezes e com pessoas realmente do BEM … como o Michel.
Leio isso com angústia e muita tristeza em perceber que estamos caminhando para o lado errado, o lado da discórdia e violência.
O nosso país deveria comportar-se de maneira muito diferente do que isso que vemos por aí!
Temos realmente que divulgar isso, para que pessoas com dicernimento como nós, possamos fazer algo de melhor na vida e propagar sempre o bem!
Michel, sinta-se solidarizado!
Por Kátia no dia 03.13.09 16:21
Olá Denize, solidarizo-me, com muita tristeza em tomar conhecimento de fatos de natureza que para mim, não é humana (não deveria ser). Mas creio que a pergunta é: por que estamos aqui?
Paz no coração!
beijos fraternos.
Por Silvana no dia 03.13.09 16:55
A falta de respeito com o ser humano é o que vem consumindo nosso mundo. NINGUÉM merece ser tratado de forma desrespeitosa, nem “gente do bem”, nem bandido, NINGUÉM. Porque se nós, considerados pela sociedade “gente do bem”, estamos no mesmo plano que eles, significa que não dos distanciamos tanto assim deles. TODOS os seres humanos, indistintamente, merecem respeito. E essas coisas só acontecem porque a maioria dos seres humanos hoje em dia não tem nem respeito próprio. Como tratar o outro de uma forma que eu nem mesmo consigo me tratar? Me solidarizo com o sofrimento do Michel, mas o mais importante é que após isso ele não mude a postura dele, continue sendo respeitoso com os outros. Esta é a melhor forma de transformar o mundo a nossa volta. Abraços.
Por Suellen no dia 03.13.09 17:02
É tão estarrecedor que eu fico assim: emudecida (e de coração apertado. sempre sempre). Que bom que tu tá aqui pra fazer a voz do Michel ser ouvida minha De.
Por Joelma no dia 03.13.09 19:13
Muito triste isso! Que mundo injusto!
Por Raquel no dia 03.13.09 19:22
Denize, eu lamento muito.
Tudo, TODOS, estão à beira de um ataque de loucura. Histeria coletiva, as pessoas idiotizam, perdem a razão, caem numa ignorância cega e surda.
Eu tenho muito medo de por filho no mundo por conta disso. Sei que é um medo tolo, mas em mim é sincero.
Outro dia aqui em Copacabana, eu saindo do Hortifruti, havia uma discussão na rua: o taxista dentro do carro, o pedestre na faixa de pedreste, o sinal com defeito. Direito do pedestre. O motorista avançou. O pedestre, indignado disse: estou no meu direito, você está errado. Não tenho pressa. Está com pressa? Pode passar.
O motorista arrancou com o carro e sai arrastando o pedestre até sumir de nossas vistas enquanto gritávamos perplexos na rua para ele parar o carro.
Fiquei muito triste aquele dia, e há motivos para ficar triste todos os dias, infelizmente. É que a gente levanta a cabeça e segue sorrindo para viver com alegria e esperança.
Solidariedade ao Michel.
Por Bia Paschoal no dia 03.13.09 21:19
Situação grotesca! Bem diz a grande professora Heleieth Safiotti, tem gente que sofre de “síndrome do pequeno poder” - sai da frente que eu tô fardado, sou “ôtoridade”.
Vontade de pedir pra descer desce lugar, viu?
Por Cristiane Yumi no dia 03.14.09 00:13
Uma cidade tão linda, com tantas coisas boas e deixar acontecer isso? O prefeito tem noção do que ele fez? Ele deveria, no mínimo, obrigar ao cavalo que fez isso com o Michel a pedir desculpas em rede nacional e depois ser demitido. Isso não se faz com um animal, muito menos com um ser humano inofensivo.
É por essas e muitas outras que com vc falou Dê (muito bem colocado), não só no Rj, eu vivo com medo das pessoas. Quem eu posso olhar na rua e puxar papo pra ser mais um amigo? Ninguém né?
Mas esse guardinha vai ter troco, ah se vai…
Por Ju, Aju no dia 03.14.09 01:22
Denize, por favor se você tiver o relato em formato que eu possa repassar por e-mail pras pessoas da minha lista por favor me envie.
Um abraço e toda a minha solidariedade ao seu amigo.
Tatiana
Por Tatiana Yazbeck no dia 03.14.09 01:40
O grande problema é que as pessoas acham que o Problema é o “guardinha”. Mas se esquecem que, por descaso ou falta de opção, elegeram justamente o representante desse tipo de mentalidade. Quem vive no RJ sabe as políticas de segurança atualmente adotadas. Atira e mata primeiro e depois vê no que vai dar. Foi assim com o menino João Roberto, aqui na Tijuca. Com a pequena Raíssa em Madureira. E tantos, tantos outros que sequer lembro o nome, vítimas de bandidos fardados ou não.
Quando isso acontece longe dos olhos da mídia, tudo bem… Arbitrariedade, acontece aos montes em todo o canto da cidade…
O cara não gosta de mendigo na porta do seu prédio. OK. Daí vem o choque de ordem e retira o mendigo. E daí? Ótimo! o Morador, seja da Zona Sul, Tijuca, Centro, Barra, ou quaisquer outros bairros “nobres” tá se lixando para as causas desse problema social. O importante é que, momentaneamente, livrou-se dele.
Tá preocupado com a quantidade de camelôs que invadem as ruas, atrapalham as calçadas, mas e os bares e restaurantes “chics” que invadem as calçadas e impedem o direito de ir e vir de cadeirantes e carrinhos de bebês, por exemplo? Se eu vejo um assalto acontecendo numa rua, não vou tentar acudir a vítima, chamar atenção, ou chamar socorro, nunca! Me expor? Não, eu discretamente mudo de calçada! Avanço o sinal depois das 22h, mesmo sabendo que nesta, e não naquela encruzilhada da cidade, não tem assaltos. É carnaval? Faltam banheiros químicos? Então eu faço xixi na calçada!
Sinceramente, muitos outros absurdos me chocam nessa cidade. Talvez eu já esteja tão calejada, que esse fato, do cidadão Michel, não me altere mais. Talvez por ser comum a violência atingir a todos, mas só realmente causar dor e indignação quando atinge a nós mesmos ou a nossos próximos.
Como por exemplo, probibirem o rapaz que há mais de 20 anos vende frutas no sinal em frente ao neu prédio. Ele não vai aparecer nos jornais, mas com o trabalho de ambulante, pôde sustentar sua família. Outro dia a G.M. levou embora mais de R$ 100,00 de mercadoria. Pra mim isso é pouco, mas e para ele? Algum morador protestou? Talvez não tenha atrapalhado meu direito de ir e vir…
O problema é que temos vergonha de denunciar arbitrariedades e injustiças, ou pior, somos coniventes por achar que pimenta nos olhos dou outros é só refresco…
Desculpe o desabafo. Mas é que tá cada vez mais difícil viver e amar essa cidade, esse Estado, ese País. E eu não quero me embrutecer, mas realmente não é tarefa fácil.
Por Nadia no dia 03.14.09 02:20
Poize , quando cheguei aqui ha 16 anos atras, meu marido nao entendia bem a minha desconfianca com policiais e politicos. Sinto muito pelo seu amigo Denize e por todos os outros que passam por esse abuso diariamente!
Por Audrey no dia 03.14.09 13:04
saí do RJ em 2000, não volto, tenho horror, vivi por 14 anos… já me deitei no chão de um ônibus por causa de louco com uma 38 na mão,arrastão na praia, quase tive o carro jogado longe pq um motorista não foi com nossa cara, dentre tantas outras coisas, coisas que lemos todos os dias nos jornais, enfim, saí do RJ em 2000 e não volto, tenho horror pânico… Abraços KKá
Por Kká no dia 03.14.09 20:35
Ai, meu Rio… Tão lindo, tão largado. Notícias como essa, tão corriqueiras, me deixam sem a menor vontade de voltar.
Por Silvia no dia 03.15.09 13:13
Tem nem o que diser… Por isso tanta gente tá tentando sair do país…
Por Cecilia no dia 03.16.09 01:59
Absurdo,a violência não abre espaço para a fala. São contrárias. A violência, vem para calar. O procedimento já era truculento,estranho.
Michel, tentou falar, e não teve espaço. Essa é a manutenção da violência. Com minha “força”, eu compro seu silêncio….. poderia dizer sem comentários, mas seria uma contradição, nessa hora o melhor é falar, gritar, mostrar sempre, para lutar contra essa falta de respeito, ética.
Trabalho com violência doméstica, e penso que muito barulho deve ser feito para rompermos com essa realidade estranha.
Fica a indicação de um livro excelente sobre o tema, porém profundo e técnico, para quem quiser conhecer - “A violência no coração da cidade” - Paulo Cesar Endo - Um estudo psicanalítico.
Vamos falar sim, comentar, nos indignar e construir redes de enfrentamento!!!!
Por Maria Carolina no dia 03.20.09 09:48
Terminei de ler esse post quase em estado de choque. Não esse choque de ordem absurdo, que abusa do direito do cidadão ir e vir.
Realidade estranha essa, como bem disse a Maria Carolina aí em cima. Às vezes acho que sou de outro planeta, graças à Deus, por não conseguir ver nada de normal nessa brutalidade toda.
Minha solidadriedade ao Michel, ao proprietário do bar e seus funcionários.
Estou chocada!
Por DeeDee no dia 01.19.10 13:21
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