Sexta-feira, 23 de Julho de 2010

gravidez e parto de idéias : não interrompam!

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Parir idéias é como parir filhos. Guardada as devidas proporções, é claro. E tendo experimentado ambas as situações, me dou o direito aqui de fazer uma analogia bem bestona entre uma coisa e outra.

Idéia boa é idéia parida, alimentada e criada.

Você pode passar uma vida inteira grávida de idéias, sem limite de prazo gestacional. Mas o melhor de tudo é poder parí-las (e naturalmente se possível). Gravidez de idéias tem as vantagens e os incômodos de uma gravidez normal. Você as vezes enjôa, desenjôa, fica ansiosa, tem azia, muda de comportamento e humor sem ter nem pra quê, tem vontade de cores e sabores inexplicáveis. Mas tem uma vantagem na gravidez de idéias que a gravidez tradicional não tem: você pode dividir a gestação com outras pessoas, vejam só que beleza!

A gente elabora, pensa como vai ser o parto, prepara o terreno, escolhe o local, aqueles que julgamos ser “os melhores profissionais do mercado” (e que podemos pagar) para nos auxiliar neste momento único e tão importante, aquela doula amiga para nos amparar nos momentos de loucura e emoção, para fazer uma massagem nos pés ou nas mãos, enfim, idéias e seres humanos precisam de cuidados bem semelhantes em suas gestações e nascimentos.

Quando uma idéia está prestes a nascer a grávida fica ansiosa, sensível e instável. E quer saber?! Atire a primeira pedra quem não pensa (ou pensou) em desistir durante o processo. A grande vantagem é que idéia é coisa que se pode ter sem depender do outro. E também interromper, descartar, encostar num canto, esquecer,colocar outra no lugar, ajustar, substituir, superar, tudo isso (quase que) sem culpa, sem que ninguém saiba ou sofra além de você mesma.

Mas ó, tenho que falar: idéia boa é idéia bem nascida. Aquela que vai fazer a diferença, mudar sua vida, a vida de alguém, mudar o mundo, ahá, essas a gente precisa fazer nascer, nem que seja à forceps ou por procedimento cirúrgico, cortanto sua barriga por sete vezes em forma de cruz até chegar ao útero e depois costurando tudo. Pedir ajuda nesses casos é fundamental. E pra idéia boa e com estirpe, sempre tem um exército apaixonado de plantão pronto para entrar em ação.

Quando geramos uma idéia, alimentamos a esperança que ela nasça, cresça bem e saudável, sem nenhum defeito. Contamos os dedinhos dos pés e das mãos da idéia assim que ela nasce e sinceramente desejamos que ela nos traga bons frutos e quem sabe até algum lucro. Ahá, olha aí, a gente pode lucrar e muito com uma idéia bem nascida (e tem gente que lucra também com filhos, mas abafaremos essa parte da comparação). E muitas vezes já geramos a idéia pra ganhar dinheiro, embora normalmente as idéias mais geniais são geradas e movidas pela paixão, com valores e desejos mais elevados.

Uma idéia, assim como um filho, semeada com amor e paixão, cultivada com cuidado, informação de qualidade, preparação e exercícios diários, tem tudo pra desenvolver-se e nascer saudável, de parto natural, sem grandes intercorrências. A preparação para o nascimento deve ser cuidadosa nos mínimos detalhes. E como já disse lá no começo, uma boa equipe comprometida com a mãe é fundamental neste momento.

Você saberá mais ou menos sua DPP (Data Prevista para o Parto) se contar os dias de concepção e gestação bem direitinho, e por conta disso vai organizar tudo e todos para o nascimento. Mais uma vantagem da idéia é que ela pode nascer no tempo que você quiser, em segundos, minutos, dias, meses ou até anos.

Nos poucos dias que antecedem a data prevista para o nascimento da idéia você vai acionar toda a equipe escolhida para que fiquem de prontidão. Tente diminuir sua ansiedade, caminhe, respire, organize-se, fique centrada com o foco no nascimento, pois sua adrenalina estará a mil por hora. Não se esqueça de arrumar os seus pertences e fazer a malinha de primeiras necessidades da idéia, pois depois do parto você e ela vão precisar ter tudo ao alcance das mãos.

Agora vem a parte dolorosa, mas que eu tenho que falar: evite o aborto! Se precisar realmente interromper sua gravidez de idéia, faça antes do terceiro mês, em local seguro. Idéias podem ser legalmente abortadas (já filhos, vocês sabem…), mas é sempre bom fazer isso antes que ela encorpe e tome forma, para evitar riscos maiores para você mesma. Pode acontecer abortos espontâneos, aliás, isso acontece muito com idéias de primeira viagem e a gente até entende de alguma forma que ela (a idéia) não devesse mesmo nascer neste momento. Gravidezes de idéias podem ser múltiplas e acontecer a qualquer momento.

Durante o trabalho de parto o ambiente deve ser o mais seguro e confortável para a mãe. A doula (ou acompanhante de parto) é fundamental neste momento pois vai cuidar para que tudo saia dentro do previsto, do jeitinho que você sonhou. Aliás, doulas as vezes nos surpreendem, tomam conta do pai, da família, fazem sopa quentinha e são verdadeiros anjos neste momento. Parir idéia dói. Mas é uma dor absolutamente suportável (tal qual a dor do parto natural). Pessoas criativas foram feitas para parir idéias e toda a fisiologia (do corpo e da mente) está a nosso favor neste momento.

O parto em si é imprevisível. A gente tenta garantir que tudo ocorra bem, mas existem situações que estão fora do nosso alcance. Existem casos de idéias que nascem sob o comando de “Deus”. Se “Deus” de repente decidir que ela não vai nascer, pronto, acabou-se o mundo e ela não nasce. Afinal né, “Deus” está acima de tudo, “Deus” pode, “Deus” é. Aliás, as vezes a idéia até nasce, contrariando Sua vontade, mas nasce torta, sequelada, com prejuízos para todos. A mãe pode estar pronta, dilatada, tudo certinho, com a idéia coroando, já saindo e plim! pode parar, Deus não quer mais, fecha as pernas, cala a boca e engole o choro que essa idéia aí não vai nascer agora nem…

Uma idéia interrompida durante o trabalho de parto nunca mais será a mesma. Ela pode morrer, a mãe pode morrer, os dois podem morrer juntos, a equipe fica fragilizada, outras pessoas precisam ser chamadas para intervir na emergência, enfim, o prejuízo pode ser bem maior do que calculamos. Mesmo nascendo depois, de outro jeito, com outra equipe, noutra maternidade. A dor real de um trabalho de parto interrompido só saberemos depois. Com o tempo, avaliando com calma e tranquilidade, sem o calor da emoção, sem o susto da interrupção brusca e repentina. Cá pra nós, ninguém merece interrupção brusca e repentina, sem explicação, sem ter nem pra quê. É injusto, imoral e doloroso. “Deus” pode ser muito egoísta as vezes e não temos o direito sequer de achar ruim, ora bolas, foi “Deus” quem quis assim.

Já deu pra perceber que posso ficar dias e dias aqui fazendo analogias sobre esses dois temas. E sem modestia, com bastante propriedade. Mas é que neste momento tive um parto interrompido e por isso vou me fazer de “Deus” e sacanear vocês também, interrompendo este texto, este assunto e vou até ali respirar um pouco, dar um tempo pra mim e vocês digerirem, pensarem, discutirem e comentarem a respeito, quem sabe até aproveitar para fazer um sexozinho solitário bem prazeroso e gerar uma idéia novinha em folha, só minha e de mais ninguém.

P.S.: A foto acima é um detalhe do meu paredon novo, que foi lindamente concebido e concluído essa semana e tem me feito muito feliz por investir no que vale realmente a pena!

11 Comentários

Maravilhoso esse texto!!!!
Eu nunca comento por aqui, nem sei se vc lembra de mim (nos conhecemos no encontrinho c/ o Torquatto) e vi seu twit… não pude deixar de ler isso. Vou até salvar nos meus favoritos p/ reler! hehe
Obrigada por compartilhar com a gente esse post, que é uma injeção de ânimo!
Bjos!

Mostro a foto do resto da nova cria real… o paredon! O texto está ótimo, pensei até em dividir com o pessoa de cá….mas eles não entenderiam!
Beijos

Dê, amei a parede! O texto, então… sem palavras, pois era exatamente isso que eu estava precisando ler. Agora é introjetar e colocar em prática!
Beijos e um ótimo final de semana, Cris Yumi

O paredon está maravilhoso. E eu torço prá que você digira bem e indolormente a interrupção do parto e volte a engravidar de coisas lindas e frutíferas em breve, viu? Beijo.

“Deus” pode ser um cara muito cruel, isso sim. E eu também, sem falsas modéstias, de que é que falamos. Texto maravilhindo.

Ops. Era pra dizer que eu sei de que falamos, ficou parecendo que essa LOIRINHA MÁ® sabe ser bem cruel…rs E não é que eu sei também? :P

Que lindo, Denize! Só podia ter saído de você, parideira de lindo filho e de idéias geniais… :)
Beijos!

PS. Só mais dois comentários… ontem fiquei matutando sobre o que vc escreveu e, sobre a dor, tal qual a dor do parto de um filho, a dor de parir uma idéia é esquecida assim que vc a tem nos braços, nénão?
O outro: Mostra logo esse paredon!!!!

Denize, nada a ver com o seu post lindo, mas hoje estava voltando pra casa, meio melancólica, olhando pela janela, aí, de repente, vejo uma La Reina passeando - uma bossa nova de veludinho marrom. Foi tão gostoso! Quando vi, cadê melancolia? Estava sorrindo sozinha. Obrigada! Beijos.

O duro é qd. temos a “idéia roubada”, hehehe e registrada hahaha!!
Deus não sacaneia…….”Nós” é que o sacaneamos no fundo da verdade!! Bonito texto!! abração!! :-)

Cadê tú rainha? tô vindo aqui toda hora ver notícias….eita vício…bjus



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